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sábado, 9 de agosto de 2014

Velha e chata

Mas também pode ser "o inevitável estreitamento das possibilidades em relacionamentos"

Quando eu tinha uns cinco ou seis anos e era suficientemente ingênua pra ser comprada por histórias de príncipes encantados em cavalos brancos, alguns critérios básicos sobre como seria o amor da minha vida rodeavam meus pensamentos, e eles se resumiam a quatro: 1) ser homem; 2) ser um príncipe; 3) ser bonito; e 4) ter um cavalo branco. No mundo lúdico da minha pequena porém já sagaz cabecinha, comecei a perceber que não seria tão fácil assim encontrar alguém que tivesse um cavalo branco, já que eles são caros e extremamente difíceis de serem mantidos limpos e, portanto, brancos. Se a essa altura o processo de desilusão amorosa já havia começado, imaginem meu nível de descrença agora, depois de vinte e dois anos absorvendo experiências sobre relacionamentos e sabendo que, não, amor não é suficiente.

Pode até ser que em algum momento da história da humanidade o amor tenha sido suficiente, mas algo me leva a crer que isso só seria possível em um mundo onde as relações fossem pautadas em pouquíssimos e simples aspectos. Ou seja, talvez nem o homem de Neandertal tenha sido capaz de presenciar tal feito. Isso porque a nossa relação com o outro, na minha humilde opinião, está intrinsecamente ligada a nossa visão de mundo, às inúmeras e complexas redes de conexão com tudo aquilo que faz ser quem somos e gostar do que gostamos; às relações sociais. E se com cinco anos eu já me pegava pensando nas dificuldades de um relacionamento com alguém que não tivesse um cavalo branco -ou que não fosse capaz de mantê-lo branco-, porque eu considerava essa uma característica importantíssima, pensem quantas variáveis realmente relevantes acumulei ao longo de vinte e dois anos.

Reparem bem que não estamos falando aqui das coisas pequenas, tipo o gosto musical (embora gostar de rock garanta uns mil pontos extras), o sabor de sorvete favorito ou o fato de preferir A Song of Ice and Fire à The Lord of the Rings (não prefiram, por favor). Quando ouso dizer que amor não é suficiente, devo pelo menos levar em conta a grandeza de tal sentimento e sua força diante de inúmeras intempéries e reconhecer que não é porque alguém gosta de Latino que o amor vai acabar, e eu sou prova viva disso. O buraco é muito mais embaixo porque estamos lidando aqui com as coisas importantes. Essas coisas importantes são muito relativas, eu acho, e, novamente, digo que elas tem muito a ver com a forma como enxergamos o espaço e as relações ao nosso redor, por isso as prioridades e quesitos a serem preenchidos são diferentes pra cada um de nós.

Meredith Grey entende das coisas pequenas (e das grandes também)
Eu sou um ser extremamente político, então esse é um aspecto importante na construção do outro pra mim. Isso significa que não vou deixar de me relacionar com alguém que não suporte sorvete de pistache, que é o meu favorito, mas vou passar longe de alguém que abra a boca pra dizer que "direitos humanos são pra humanos direitos". As coisas importantes são chamadas assim porque são decisivas, tem a ver com identificação, admiração, respeito, e não conseguimos ignorá-las por muito tempo. Posso até gostar e me relacionar com pessoas que veem o mundo de uma forma completamente diferente que eu, e isso se chama maturidade pra aceitar que posicionamentos diferentes são válidos e saudáveis, mas na hora de pensar em alguém pra compartilhar toda uma vida, vou esperar por alguém com escolhas semelhantes às minhas, pelo menos no que diz respeito às coisas importantes da minha lista pessoal.

Quer dizer, depois de tanto tempo, era esperado que meus quatro critérios se tornassem obsoletos e eu os substituísse por novos. Mas como eu disse, tudo que somos é um compilado daquilo que vivemos e absorvemos no contato com as pessoas e com o espaço social, e não seria uma surpresa perceber que a medida que fui envelhecendo, meus critérios não só foram mudando, como também resolveram se multiplicar, tornando minhas possibilidades de relacionamento cada vez mais estreitas e fazendo com que eu, por vezes, me veja como alguém (nem tão) velha e chata. Se quatro míseros requisitos já pareciam um mar entre mim e alguém, o que é que eu faço quando tenho em mãos uma lista não só extensa mas também recheada de itens pouco comuns mas de grande procura? Adoto mais gatos e me torno, oficialmente, a tia louca dos gatos dos filhos das minhas amigas, porque nem irmãos eu tenho? Continuo na luta porque não sou de desistir?

Quando eu era só uma miniatura e um projeto muito mal diagramado daquilo que sou agora, eu tinha esses quatro critérios. Eu não quero mais um príncipe. Eu não me importo mais com o tipo de beleza que procurava antes. Eu não faço questão que um cavalo branco esteja em jogo, mas é essencial que goste de animais, todos eles. Eu não procuro sequer por um homem. Aos vinte e dois, eu me permito amar pessoas, sem distinção nenhuma de gênero e sou muito bem resolvida com isso, obrigada. Aos vinte e dois, na lista de coisas importantes, tem posicionamento político, religião, filhos, feminismo, preconceito e mais uns quatro itens que, aos vinte e três, seguindo a boa e velha progressão aritmética, serão uns dez. Na lista de coisas pequenas, mas não menos apreciadas, coloquei um guarda-roupa com camisas xadrez, uma estante cheia de livros, o gosto pelas artes e pela boa e velha preguiça matinal.

Como se eu já não estivesse limitada a uma ínfima parcela das pessoas desse mundo, além de tudo isso, tem um único critério comum a quem eu era com cinco e a quem eu sou com vinte e dois e que será comum com quem ainda vou ser daqui dez ou vinte anos, que eu conhecia só como borboletas na barriga e que Frida traduziu:

Tá fácil, né? Pois é, eu sei.

11 comentários:

  1. Ainda acho que um cavalo é um elemento muito importante, mesmo que seja meio encardido.
    Realmente, requisitos são coisas muito pessoais. Achei os seus bem sensatos, mas no fim acho que até o nível de influência desses requisitos variam de pessoa pra pessoa. Ou o momento em que eles são considerados, sei lá.
    Acho que se a pessoa for uma completa imbecil, as chances de eu me apaixonar são muito pequenas. Agora se eu já estou apaixonada, adeus critérios.
    Acho que eu sou um ótimo exemplo de como a gente quebra a cara nessa vida rs
    Beijos <3

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  2. Giu, tem como você parar de ficar falando por mim? Porque eu estou achando que seremos duas velhas e chatas. Você vai ser a louca dos gatos e eu vou ser a louca dos cachorros.

    Ver que eu também deixei essa imagem que tinha quando criança me faz pensar que hoje sou uma pessoa muito mais crítica e me atento a detalhes que nem imaginaria que seriam importantes, mas ao mesmo tempo, a nossa listinha de coisas importantes que parecem essenciais para a admiração por uma pessoa só parece mais difícil de ser preenchida com esses "direitos humanos para humanos direitos".

    Agora, vamos esperar só mais um pouquinho antes de começar a acumular gato e cachorro? Te faço companhia até lá.

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  3. Amiga, ~alguém que tenha um cavalo branco e consiga mantê-lo branco~ HAHAHA, amei.
    Nem comento sobre ~exigências no amor~ porque 22 anos nas fuça e... nem preciso completar.
    Mas eu concordo demais com você. Não consigo imaginar amar alguém sem admirar. Sem caminhar junto com a pessoas nas convicções mais importantes, sabe?
    Tem coisas que a gente supera. Tem coisas que não. Ou mesmo que sim, mas desde que haja total respeito, sabe? (Lembrando aqui de April e Avery).
    Você não é velha e chata. Você vai amar de novo, e vai ser lindo, e MESMO casada você vai ser a tia louca dos meus filhos porque, quer saber da última? Sou tuas nega ;)
    Beijos! Amo!

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  4. Espero que esteja ouvindo minhas palmas até agora.
    Sabe, diferente do que a minha mãe diz, eu não sou exigente, nunca fui. A única coisa que sempre esperei de alguém pra me apaixonar é o que eu definia como "estar na mesma frequência". Sempre quis alguém com quem eu me sentisse à vontade e que me compreendesse na mesma medida que eu pudesse retribuir. Hoje percebo que isso inclui muito mais do que incluía quando eu tinha, sei lá, 13 anos. Hoje existem visões de mundo, posições políticas e ideológicas, sonhos e isso tudo. A grande questão é: será possível?
    Mas sabe, não acho que você seja velha e chata. Nem eu, nem nenhuma de nós. Vejo e espero um futuro lindo e diferente pra cada uma.
    Beijo <3

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  5. Vamos tirar um momento para amar essa Pássara: "Ainda acho que um cavalo é um elemento muito importante, mesmo que seja meio encardido."
    Porque cara, cavalos são importantes, mas reconheço que não estou na posição de ficar exigindo quadrúpedes por aí, porque achar um amor de duas pernas já está difícil o bastante.

    Sabe que você colocou em palavras uma coisa que sempre, sempre, SEMPRE me assombra? Porque eu brinco que fui ficando cada vez mais flexível com as minhas exigências, que agora se for homem e tomar banho todo dia demorou é noix, mas eu sei que o buraco é tão mais embaixo. Quando a gente é adolescente, pensa que a coisa mais complicada do mundo é achar um amor que goste de Beatles e filmes do John Hughes, mas a equação se torna 45 vezes mais difícil quando adicionamos as variáveis que fazem a gente ser quem a gente é do jeito mais profundo, a pedra bruta mesmo. Acho possível amar alguém com visões de mundo diferentes, mas não acho que dure por muito tempo. Nem todo dia é um domingo preguiçoso de manhã com disco bom no som e café da manhã na cama.

    Queria ter alguma pílula mágica de sabedoria pra você, ou uma bola de cristal pra te dizer que vai ficar tudo bem, mas infelizmente está em falta. O que tenho é a certeza de que você não é velha e chata, mas sim uma mulher foda que sabe o que quer.
    beijas <3

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  6. Ai, Giu, taí uma realidade. É como eu vivo dizendo às amigas: o príncipe não é uma pessoa sem defeitos, mas uma pessoa com defeitos com os quais PODEMOS LIDAR. Porque tem defeitos que não rolam, e isso é muito pessoal. O que é defeito pra mim pode ser uma qualidade pra você. Weslley, por exemplo, não é uma pessoa de sair pra beber e isso, pra mim, é uma qualidade, porque eu jamais conseguiria levar um relacionamento pra frente com alguém que vivesse bêbado ou em bares. Já pra algumas amigas minhas, isso seria um defeito, porque elas mesmas gostam muito de sair e querem um parceiro que as acompanhe em suas saídas.

    Então, em resumo, o que eu tenho a dizer é: vai aparecer, amiga. Vai aparecer essa pessoa, sim, e os defeitos delas serão aceitáveis pra você e as qualidades farão toda a diferença na sua vida. Você não é velha nem chata, você é como todas nós. Todos nós temos nossos 'deal-breakers' e isso é normal, comum. Você vai encontrar alguém pra aquecer os seus pés nas noites frias porque é apenas o correto a acontecer.


    Beijinhos e melhoras pra essas amígdalas, viu?

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  7. Sabe, eu sempre disse que o amor não é suficiente e sempre escutei que "o amor verdadeiro é". Não. Eu jamais conseguiria ficar com uma pessoa que trata mal a própria mãe (sem motivos, sabe), ou que é homofóbica, ou que não gosta de animais, ou sei la. Meus critérios, teus critérios...todos temos critérios que, mesmo não expostos, estão ali para lembrar que o amor, aquele que falam, não é suficiente e nunca vai ser.
    Porém acredito que podemos ser tolerantes (até certo ponto) e que podemos (e às vezes devemos) ensinar algumas coisas para a pessoa que amamos. Até porque algumas coisas às vezes é só ignorância. Sei disso por experiência própria.
    E o amor pode não ser suficiente, mas é paciente e a paciência na maior parte das vezes é o que faz as coisas acontecerem. (rimou?)
    Beijo, te amo (contigo correspondendo a todos meus critérios de amizade verdadeira)! <3

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  8. Nem velha, nem chata, Giu, todo mundo tem direito a estabelecer seus critérios, se assim quiser.

    Eu nunca pensei nisso, para ser honesta. Acho que não tenho critérios. Eu e o Lu somos muito diferentes, inclusive em coisas que considero importantes. Eu o respeito, ele me respeita e está dando certo até então. Também acho que amor não é suficiente. Mas respeito pode ser. :)

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  9. Tá fácil não. E acho sinceramente que, do que adianta estar acompanhada de alguém que você só se desentende?

    Obviamente, vai muito das prioridades, e cada época acaba nos avisando quais são as nossas. A minha é estar longe de problemas. Odeio gente que só me traz problemas. Já tive tantos que não tenho mais paciência...

    Espero que você tenha "a sorte de um amor tranquilo", pq no fim, é isso que todos nós queremos :)

    Um beijo,
    Re

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