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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Vamos falar sobre primeiras vezes pela primeira vez


Esse post faz parte da recém inaugurada tag crônicas das primeiras vezes, e 
e pretende-se ser um compilado de todas as experiências que viverei pela 
primeira vez, sem nenhum compromisso com a total veracidade dos fatos, 
mas com algum grau de comprometimento com a realidade.


Eu e Patrick nunca havíamos saído. Eu digo, saído juntos, porque é óbvio que eu já havia feito isso antes, embora não muitas vezes e não com esse propósito, e algo me dizia que essa era a primeira vez dele nesse tipo de encontro também. Eram nove horas de uma sexta-feira, dia primeiro de agosto, eu acho. Não marcamos hora e, pra falar a verdade, nem o tal do encontro. Apenas decidimos que faríamos aquilo naquele momento, já que a sexta-feira havia chegado e com ela uma necessidade inquietante de colocar os pés pra fora de casa depois de um dia inteiro jogados na cama ao som de The Clash e na companhia de alguns filmes nem tão bons assim como Duelo de Titãs.

Fomos andando juntos pela rua, calados, apenas observando as inúmeras formas de se aproveitar uma sexta à noite que o caminho nos mostrava: alguns meninos jogavam bola em um campinho de areia, enquanto outros apenas mexiam com as garotas que passavam por ali. Em um bar onde os estudantes costumam se encontrar, alguns daqueles que ainda não tinham ido pra casa por conta do recesso acadêmico enchiam a cara deliberadamente com cerveja barata e fumavam cigarros enrolados em seda, e eu pude perceber a risada contida no rosto de Patrick quando ele sentiu aquele cheiro familiar. Mais à frente, alguns senhores de idade, sentados à beira da rua, apenas conversavam enquanto lançavam olhares de reprovação pra minha calça rasgada desde a coxa até os tornozelos. Não que eu me importe, mas às vezes me parece que a discrição virou algo totalmente fora de uso.

Nosso destino era meu restaurante japonês favorito. Chegamos a essa decisão após um total de zero palavras do Patrick e todo um mar de possibilidades à minha escolha que incluíam o restaurante em frente ao sushibar e a pizzaria. "Muitas opções", eu pensei. Mas foi um daqueles pensamentos altos, que em milésimos de segundo percorrem o trajeto desde os neurônios até a ponta da língua, e em um instante já havia sido cuspido na forma de murmurio, já que Patrick imediatamente deixou escapar uma gargalhada, como quem tenta mostrar que entendeu a ironia. "Nunca te disseram que ironia se responde com outro tipo de risada?", eu disse. Ele corou. Coitado. Não queria soar rude, mas às vezes, e principalmente quando estou com fome, sou meio imbecil. Pedi a ele que esperasse cinco minutos pra que eu pudesse trocar de roupa, já que não me pareceu apropriado sair na rua com calças de pijama listradas e uma camiseta velha e amarrotada dos Rolling Stones. Talvez esse look tivesse recebido menos reprimendas dos senhores que as calças rasgadas.

Quem sabe eu tenha sido mesmo um pouco áspera, porque Patrick manteve-se calado durante o resto do trajeto. Quando chegamos, eu pedi mesa pra um, e ele arqueou a sobrancelha e arregalou os olhos. "Se eu pedir uma mesa pra dois, vão nos dar uma mesa pra quatro, já que existe essa convenção social estúpida de que casais precisam sentar um ao lado do outro até mesmo em restaurantes como se estivessem dentro de carros", eu expliquei. "Se eu pedir mesa pra um, eles vão nos oferecer uma mesa pra dois e vamos poder jantar como pessoas normais que somos, já que não costumo fazer minhas refeições dentro de carros. Além disso, eu gosto de olhar nos olhos das pessoas", completei. Patrick fez o que de melhor sabe fazer: nada. Assim que nos sentamos, abri o cardápio todo em frente ao meu rosto, porque a situação havia ficado um pouco embaraçosa depois do lance com as mesas, e eu só queria cinco minutos de silêncio pra bolar algo que me fizesse parecer menos psicótica e mais normal

Eu conheço aquele cardápio de trás pra frente, porque, alou, é o meu restaurante favorito, mas mesmo assim fingi estar interessadíssima em todos aqueles pratos diferentes pra ele que eu já conhecia muito bem. Silêncio. Ele continuava calado, e eu entendi que se não tomasse a iniciativa e pedisse algo por nós dois, jamais sairíamos daquele lugar com algum pedaço de peixe no estômago. Eu disse que conhecia o cardápio de trás pra frente, né? Pois então. Não sei se foi o acaso, mas providencialmente vi dois novos pratos anunciados com um novidade em amarelo ao lado, e decidi arriscar. Aquilo poderia se tornar algo nosso, não? Uma coisa que provei pela primeira vez na primeira vez em que saí com Patrick. Parecia promissor e um tanto místico, e foi o que eu fiz. "Nunca provei esses aqui, tudo bem pra você?", perguntei. "Tudo bem pra mim se tudo bem pra você", ele disse. Pensei que ele ficaria mudo novamente depois disso, mas não. "Tudo bem pra você se eu contar uma história enquanto você come?", ele emendou. 

Era esse o motivo do silêncio, então. Durante todo aquele tempo ele provavelmente esteve ruminando a tal da história ao invés de manter um diálogo normal pra não me deixar parecer uma louca fissurada por monólogos. "Tudo bem, dá uma chance pro cara", pensei, dessa vez com a boca fechada, pra evitar que o pensamento pulasse garganta afora. Só assenti com a cabeça, porque aquilo tudo de só eu estar tagarelando acabou me dando uma sede desgraçada. "Então, a história é sobre a vida de um livreiro, um tal de A. J.", Patrick disse ainda meio tímido. Bebi um gole da cerveja e esperei que continuasse, mas ele empacou. "E o que é que esse livreiro tem de especial?", indaguei, pra ver se finalmente ele seria capaz de desenrolar aquele carretel. "Ah, ele é só um livreiro, um cara meio ranzinza, meio bêbado, mais pra lá do que pra cá, mas vamos combinar assim: você só ouve, agora. Pode beber sua cerveja super amarga sem fazer cara feia e comer sua comida com palitinhos e cheia de sódio, que eu juro que vai valer à pena", ele finalmente desembuchou. "Tudo bem, senhor contador de histórias", eu disse.

Vou confessar aqui, agora, embora não devesse, que houve um tempo em que eu julgava os livros pelas capas, as pessoas pelo "fulano disse que" e fugia do novo como uma criança corre assustada na direção oposta ao bicho-papão. Houve um tempo -eu disse-, e ainda bem que esse tempo já passou. Os noventa minutos que seguiram foram incríveis e cheios de coisas ditas novas. O lugar era o mesmo, mas eu havia mudado desde a última vez que sentei em uma daquelas cadeiras. Patrick era alguém novo, não na minha vida, mas naquele contexto, naquela situação. Uma nova companhia, eu diria. Não fiz o mesmo pedido, escolhi uma nova mesa favorita de propósito, troquei a marca da cerveja e fui atendida por outro garçom. Durante quase uma hora e meia eu estive lá, em um lugar que conheço tão bem desde sempre, mas que se mostrava totalmente diferente e aberto a novas possibilidades, descobrindo uma história nova pela qual me apaixonar: a história de A. J. Fikry. "Ele não queria morrer, só estava cansado de estar lá o tempo todo", Patrick destacou, referindo-se ao livreiro.

Coincidência ou não, antes de sair de casa resolvi checar minha conta pra saber ao certo quanto poderia gastar, já que minha fome nunca condiz com meu saldo bancário. "Sessenta e seis reais!", poderia quase nadar em sashimi se quisesse. Quando pedi a conta, conferi item por item e, no final, vi um número familiar. Paguei exatos sessenta e seis reais em uma cerveja e alguns pedaços de peixe cru. No caminho pra casa, com Patrick em silêncio novamente, só conseguia pensar que aquele número não podia ter aparecido assim, totalmente por acaso. Eu devia estar lá, naquela noite. Eu devia estar lá criando novas memórias, reinventando velhos hábitos, descobrindo novas histórias. Eu devia me deixar arrebatar pelo novo ao invés de temê-lo, nem que fosse por uma noite, pra perceber que vale muito mais à pena esperar pelo futuro vivendo o presente que prender-se ao passado. 

E, pelo menos naquela noite, eu não corri.

*Acho que alguns de vocês vão perceber quem é Patrick.

5 comentários:

  1. Amiga, esse texto tá tão genial que eu quero imprimir e mostrar pra todo mundo e perguntar se eles entenderam a mensagem. Sério. Fiquei martelando aqui sozinha alguns minutos sobre o Patrick e já tava ficando com ciúmes porque achava que você tava contando algo pras meninas e me excluiu HAHAHAHAHA BUSSOLARIZEI BEIJOS

    Eu tô tipo tão orgulhosa por você ter conseguido fazer isso. <3 Sério. A Gente sabe a barra que você tá passando e tem dias que eu sofro só olhando seu twitter porque sei que você é forte, mas também tem os momentos de fraqueza e sair pra jantar sozinha nesse contexto faz de você uma heroína. Amiga, você é incrível. Muito, muito, muito!

    E eu tô louca pra ler esse livro porque vocês todas que leram gostaram bastante! Acho que vou levar o Buzz pra dar uma volta pra ele contar essa história também.

    Precisamos comer sushi juntas! Vai entrar pro meu projeto pessoal.

    Beijos. Te amo! Você é uma gênia. Posta mais, por favorrrr!
    <3

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  2. Amiga, que texto absolutamente maravilhoso. Amei demais, escreva uma crônica por dia e o mundo será infinitamente mais lindo.
    Bobeei aqui e fiz que nem a Larie: QUEM É PATRICK QUE EU NÃO SEI, no fim pensei em várias coisas e meio adivinhei meio não o que o texto queria dizer.
    Você arrasou demais, você é incrível. Te admiro muito.
    E te amo ainda mais!
    Beijos!!!

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  3. Você é genial. Muito genial. Tão genial que li a primeira vez totalmente inocente, me perguntando quem era Patrick, querendo o CPF e tudo. E aí veio a genialidade. Que pessoa, senhoras e senhores. Giuliana Rebecca,
    Essa experiência ainda é algo que preciso fazer. Acho que cheguei perto, mas não conscientemente, sabe? Não sabendo que aquele era um passo importante pra mim.
    Eu desejo um futuro tão grande e tão lindo pra você, espero que tenha uma dimensão do quanto.
    Te amo! Beijo! <3

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  4. Preciso dizer que ainda acho Patrick um antipático, mas as vezes esses seres são a melhor companhia.
    Eu acho que você tem muitas primeiras vezes incríveis pra viver nessa vida, e o potencial pra viver todas elas, porque você é muito mais forte do que pensa.
    O importante é que, sozinha ou acompanhada, é melhor eu ouvir tudo em primeira mão ou vou te caçar nos buracos mais profundos pra te dar uma coça. Com todo amor, claro.
    Pra finalizar, só quero acrescentar que fazer algumas coisas sozinha é necessário e/ou divertido, mas é bom lembrar que você nunca está sozinha, OK? É só dar um grito que eu estou aqui.
    Te amo e desculpa qualquer coisa <3

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  5. Me deparei por acaso com seu blog e adorei, Giu.
    Esse texto é sensacional e a penúltima frase caiu como uma luva pra mim.
    Beijos.

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